Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda Soneto - 

Soneto - XXXVIII

 

TUA CASA ressoa como um trem ao meio-dia,

zumbem as vespas,cantam as caçarolas,

a cascata enumera os feitos do orvalho

teu riso desenvolve seu trinar de palmeira.

 

A luz azul do muro conversa com a pedra,

chega como um pastor silvando um telegrama

e, entre as duas figueiras de voz verde,

Homero sobe com sapatos sigilosos.

 

Somente aqui a cidade não tem voz nem pranto,

nem sem-fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzina

mas um discurso de cascata e de leões,

 

e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, desces,

plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas

ou te foste e se sabe que começou o inverno.

 

(Pablo Neruda)

do livro: Cem Sonetos de Amor

tradução: Carlos Nejar

 

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