Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda Soneto - 

Soneto - XXXVII

 

OH AMOR, oh raio louco e ameaça purpúrea,

me visitas e sobes por tua viçosa escada

o castelo que o tempo coroou de neblinas,

as pálidas paredes do coração fechado.

 

Ninguém saberá que só foi a delicadeza

construindo cristais duros como cidades

e que o sangue abria túneis inditosos

sem que sua monarquia derrubasse o inverno.

 

Por isso, amor, tua boca, teu pé, tua luz, tuas penas,

foram o patrimônio da vida, dos dons

sagrados da chuva, da natureza

 

que recebe e levanta a gravidez do grão,

a tempestade secreta do vinho nas cantinas,

a chama cereal no solo.

 

(Pablo Neruda)

do livro: Cem Sonetos de Amor

tradução: Carlos Nejar

 

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