Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda Soneto - 

Soneto - XXXVI

 

CORAÇÃO MEU, rainha do aipo e da artesã:

pequena leoparda do fio e a cebola:

agrada-me ver brilhar teu impero diminuto,

as armas da cera, do vinho, do azeite,

 

do alho, da terra por tuas mãos aberta,

da substância azul acesa em tuas mãos

da transmigração do sonho à salada,

do réptil enrolado na mangueira.

 

Tu, com tua podadeira levantando o perfume,

tu, com a direção do sabão na espuma,

tu, subindo minhas loucas escalas e escadas,

 

tu, manejando o sintoma de minha caligrafia

e encontrando na areia do caderno

as letras extraviadas que buscavam tua boca.

 

(Pablo Neruda)

do livro: Cem Sonetos de Amor

tradução: Carlos Nejar

 

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