Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda Soneto - 

Soneto X X X

 

TENS do arquipélago as fibras do alerce,

a carne trabalhada pelos séculos do tempo,

veias que conheceram o mar das madeiras,

sangue verde caído do céu à memória.

 

Ninguém recolherá meu coração perdido

entre tantas raízes, no frescor amargo

do sol multiplicado pela fúria da água,

ali vive a sombra que não viaja comigo.

 

Por isso tu saíste do Sul como uma ilha

povoada e coroada por plumas e madeira

e eu senti o aroma dos bosques errantes,

 

achei o mel escuro que conheci na selva,

e toquei em teus quadris as pétalas sombrias

que nasceram comigo e construíram minha alma.

 

(Pablo Neruda)

 

do livro: Cem Sonetos de Amor

tradução: Carlos Nejar

 

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