Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda Soneto - 

Soneto - X V

 

DE HÁ muito tempo a terra te conhece:

és compacta como o pão ou a madeira,

és corpo, cacho de segura substância,

tens peso de acácia, de legume dourado.

 

Sei que existes não só porque teus olhos voam

e dão luz às coisas como janela aberta,

mas porque de barro te fizeram e cozeram

no Chile, num forno de adobe estupefato.

 

Os seres se derramam como ar ou água ou frio e

vagos são, se apagam ao contato do tempo,

como se antes de mortos fossem fragmentados.

 

Tu cairás comigo como pedra na tumba

e assim por nosso amor que não foi consumido

continuará vivendo conosco a terra.

 

(Pablo Neruda)

do livro: Cem Sonetos de Amor

tradução: Carlos Nejar

 

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