Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda

Soneto VI

 

NOS BOSQUES, perdido, cortei um ramo escuro

e aos lábios, sedento, levantei seu sussurro:

era talvez a voz da chuva chorando,

um sino fendido ou um coração cortado.

 

Algo que de tão longe me parecia

oculto gravemente, coberto pela terra,

um grito ensurdecido por imensos outonos,

pela entreaberta e úmida escuridão das folhas.

 

Por ali, despertando dos sonhos do bosque,

o ramo de avelã cantou sob minha boca

e seu vagante olor subiu por meu critério

 

como se me buscassem de repente as raízes

que abandonei, a terra perdida com minha infância,

e me detive ferido pelo aroma errante.

 

(Pablo Neruda)

 
 

do livro: Cem Sonetos de Amor

tradução: Carlos Nejar

 

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