A menina e o cão
HELÔ ABREU
 
Verdade, ou mentira,
O que vejo, sou Eu?
Sim, aqui numa posição central,
Em retratos de outros tempos,
Tempos de memória,
Se foram memoráveis ou não…
Não quero saber…
A verdade é que me vejo,
Olho,
fixo os meus olhos
na profundidade da vida,
Qual a razão de não me reconhecer ali…
Serei na realidade eu?
Talvez…
Não me sinto verdadeiramente ali..
Agarro um cão…
ou quem sabe uma cadela,
Não tenho consciência
do que sentia naquele instante,
Enquanto lhe afagava o pêlo, 
lhe apertava a barriga,
Até ele, ou ela fugir…
Afinal talvez me lembre…
Ou tenham sido as pessoas,
Os que presenciaram a minha vida
naquele instante,
Aquele sopro da infância,
Aquele momento dum passado que não volta…
Eles podem ter comentado,
Comportamentos daquela criança,
Que presumivelmente sou eu…
Mas serei?
Não sei do tempo que passou.
Onde estive eu afinal?
Preocupada com o quê,
que de nada me apercebi…
Cresci, doeu, mas cresci..
Chorei enquanto doía,
Enquanto
o mundo não me entendia,
Durante as alturas
 que queria ser diferente,
Diferente…
Chorei…
nas alturas que quis voltar a ser igual…
Mas já não era igual…
E não conseguia ser diferente.
Olho-me e não me vejo no retrato…
Como voa o tempo?
Como voamos nós,
 com os olhos tão cegos de cores?
Serei eu a única?
Talvez fosse, ou julgasse ser,
quando era “diferente”,
Ao tornar-me igual, a palavra ÚNICA
Deixou de se aplicar a mim…
Mas tu ambiente de fumo, 
de raiva também não és singular…
És igual a tantos outros…
tão maus como tu.
Como se chamaria o cão?
Alguém se lembra?...
Ninguém responde…
Estou sozinha…
quem me poderia me responder?
 
 
 

 
 
 
 

Voltar