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Requiem Ana Pismel
A Mozart Inspirado em Lacrimosa
A Lágrima
Uma lágrima é o que restou Uma gota de transparência luminosa Nessa treva amarga do que sou
Uma lágrima ilumina A noite negra e sem lua Que a solidão confronta em sua sina
Uma lágrima acalenta A alucinação eterna Desse ínfimo ser que lamenta
Uma lágrima desengana O desespero da vida que acaba Sob o peso da dor insana
Uma lágrima que mata Libertando da matéria deformada A alma que nada mais ata
Uma lágrima que vela Esquecida na face gelada Que a máscara da morte revela
A morte
A morte que paira em meu ser A morte que mina minh´alma Não é maior que o viver Que em loucura leva-me a calma
A morte que abriga minha sina A morte que traçou meu destino Não é menos bela nem fina Que o fio da lâmina que sinto
A morte que vê minha solidão A morte que entende minha essência Deixa-me segundos de um ser são Consola minha evanescência
A morte que espia meu viver A morte que vive a me espiar Não encontra ainda em meu querer O convite que a permita entrar
A morte que me leva a fugir A morte que leva seres de mim Encobre e arrasta em seu urgir Legião que viveu e dorme enfim
A morte que sinto chegar A morte que envolve o que sou Finalmente encontra meu vagar Fulminando o presente que secou
O Luto
O luto que chora um coração É a mão do sofrer feito forja Agrilhoando-o em prisão Tecida de espinhos sedentos do sangue Que sem piedade o aloja
O luto que derrama minha alma Molda o barro da insanidade Olaria noturna que rege meu ser Dando forma à minha humanidade Ferindo a fogo meu viver
O luto que soluça minha mente Vulto de um delírio alucinado Maltrata, queima e vira serpente Envenena e mata sonhos Enrola-se pelo insondado
O luto que invade meu corpo Faz-me pagar o preço da sanidade Negando-me inteiramente a fantasia Priva-me até da oportunidade De vislumbrar a melancolia
O luto que vence a minha realidade Toma posse do pouco que sou Vai e volta à vontade Perde-me no limbo da escuridão Que em si mesma me trancou
O luto que sobre mim se pôs Infesta cada poro do que sou Destila meu sangue no anoitecer E nem mesmo um fio de mim lutou A fim de libertar meu ser
A escuridão
A escuridão apaga meus sentidos Leva o mundo ao meu redor Impõe-me a mera sobrevida Deixa meus pensamentos aflitos Inundarem-se em espinhos e dor Sufocando a alma até por si esquecida
A escuridão deforma a realidade Leva ao limite a fadiga do tormento Ceifa sonhos que a deleitam satisfeita Na ânsia do sono que a ela vem sedento E quando, enfim, cai no esquecimento Conforma-se em recolher sua parca colheita
A escuridão que me sangra lentamente Verte em fios o viver desse invólucro insano Mero abrigo da assombração que arrasta E cada gota a escorrer demente Pinga lágrimas depostas no piano Que amarga as notas da morte que abraça
A escuridão que encobre os dias Traz sem piedade a morte inevitável Chove penumbra sobre a alma vazia Injeta o fel em cada pingo de ácido Corroí a habitante da lápide fria Extingue as cinzas do fogo esquálido
A escuridão que me fez insana Que tortura, mata, e também sangra Levou-me ao fundo de mim nos braços Ensinou-me a ler a verdade dos compassos Incrustados nos passos sempre em quebra Da fermata eterna que acompanha
A escuridão que a noite amarga é secreta Só se mostra aos portadores da lente certa: A comoção da lágrima que escorre O vácuo deixado pela morte que espia O desespero do luto tenebroso a envolve E vazio que a escuridão a cria
Ana Pismel
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